Notas soltas de uma campanha eleitoral, num concelho que não é para novos.

12 de Novembro de 2009

em Arouca, Política

Março Sony 114Nos últimos meses de Setembro e Outubro participei em mais uma campanha eleitoral. Tempo para conhecer ainda melhor gentes e lugares numa verdadeira terra de contrastes com sérios problemas em termos de coesão social. A matriz rural prevalece (para o bem e para o mal) onde sobressai uma população envelhecida. Os jovens, ou não existem, ou estão fora. Muitos, mesmo muitos, no estrangeiro. Entre olhares registei uma terra com fortes problemas ambientais e sociais com destaque para o despovoamento e a desorganização urbana, sobretudo nas encostas da serra.
Vi, mais uma vez, inúmeros constrangimentos estruturais e um certo empobrecimento económico. Os números do Rendimento Social de Inserção, o número de desempregados, assim o confirmam. O último estudo do Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior (UBI) coloca o concelho de Arouca num dos piores lugares do país, quanto ao nível de vida dos seus habitantes -  269º entre 278 estudados.
Ao confrontar-me com a Arouca que (re)vi na campanha, ao confrontar-me com a realidade dos números, o testemunho das pessoas e os estudos que vão sendo publicados, surge em contraponto com a Arouca das festas promovidas pelo poder político na velha lógica da representação do «pão e circo», com um concelho conservador recheado de caciques ao serviço dos pequenos interesses sociais (recordo, por exemplo, como foi estrategicamente usado o programa PARES) e alguns económicos – a Câmara de Arouca é geradora de múltiplos contratos, aquisições de serviço, ajustes directos,… atribui subsídios e patrocínios! Todo um caldo de «cultura política» que é a base embrionária para o cultivo de um certo «status», muito importante num tempo em que o poder instalado precisa de mobilizar recursos e vontades visando a sua manutenção.
Tudo conjugado permite o assumir de mecanismos de «assistencialismo» onde sobressai e assenta uma estranha rede de interessados. Cabe-lhes reunir votos e traduzir influências. Se assim não fosse, em Arouca não haveria o fechar de olhos a tanta construção clandestina, não se abririam estradas sem razão nem sentido, não se construiriam obras (algumas das quais públicas) em zonas protegidas, não se privilegiariam juntas de freguesia consoante a sua cor política, não estariam, aos fins-de-semana, de forma discricionária, trabalhadores e máquinas da Câmara em obras da responsabilidade das juntas de freguesia – prática sem possibilidade de escrutínio da oposição, seja na Câmara ou na Assembleia Municipal.
Foi e é reconhecidamente difícil lutar contra tais enraizadas práticas. Ainda no contexto desta análise, recordo que no rescaldo das eleições de 2005 escrevi num dos jornais locais sobre o jogo do «pau de dois bicos» que por Arouca se vai fazendo aquando das campanhas eleitorais. Gente que apoia interesseiramente tudo e todos, gente politicamente híbrida, que ama um candidato, se apaixona por outro e que se for preciso «dorme com o inimigo». À memória ocorre-me também um episódio (entre muitos) de 2001, de um cidadão eleitor que apoiou entusiasticamente a minha candidatura à Câmara, tendo mesmo participado em acções de campanha, e simultaneamente escrevia uma carta de apoio ao então Presidente Dr. Armando Zola (também ele candidato). Um exemplo entre muitos. Hipocrisia a rodos numa Arouca que muito gosto, mas que perante posturas e comportamentos individuais me amargura.
Gostava de uma Arouca com massa crítica suficiente, que desenvolvesse as condições para a projecção de competências e valores, com uma imprensa bem menos servil, sem editorialistas com memória selectiva, com uma sociedade civil forte e uma opinião pública esclarecida. Condições básicas que em muito ajudariam a construir um contra-poder ao caciquismo local, à manipulação e ao populismo que tanto prejudicam Arouca.

Publicado in «RodaViva», edição de Novembro de 2009.

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1 zeferino brandão 17 de Novembro de 2009 ás 17:54

Caro Amigo Oscar Brandão

Um abraço de amizade e de agradecimento pelas palavras que me deixou , pelo facto de ter iniciado a minha participação no arouca.biz.
Nos tempos dificeis que atravessamos, há necessidade de trocar informações, apresentar versões diferenciadas sobre os problemas e discutir as melhores soluções para os problemas com que nos debatemos.
Ninguém pense que é detentor exclusivo da verdade, pois ela é quase sempre fruto de opiniões diferentes.
Quando li no semanário EDV a noticia de que Arouca estava pessimamente classificada em termos de qualidade de vida, fiquei preocupado.
Estou a ver se arranjo em exemplar da publicação do observatório da UBI para me inteirar rigorosamente da situação.
Estou preocupado.
Um abraço de muita amizade
Zeferino Brandão

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