Causas perdidas?

17 de Maio de 2009

em Arouca,Autarquia

img_2248Trinta e cinco anos após a revolução que trouxe a liberdade e a democracia ao povo português, é justo reconhecer o poder local como a maior conquista de Abril, pelo seu significado no contexto do desenvolvimento económico e social do país. De facto a acção dos autarcas contribuiu para tirar o país do secular atraso para onde o tinham remetido os anos de ditadura.
Foi graças ao poder local democrático iniciado com as primeiras eleições livres, num quadro de pluralismo democrático, que se elegeram, em 1976, os primeiros órgãos autárquicos e que os concelhos começaram a abrir-se ao progresso. Um pouco por todo o país os caminhos, as estradas, água, luz e habitação social foram chegando, a pouco e pouco, às mais recônditas povoações. As vilas e cidades modernizaram-se – nem sempre numa lógica de crescimento ordenado e ambientalmente integrado – através da construção dos mais diversos equipamentos sociais, desportivos, culturais, habitação e saneamento básico, num processo que está, naturalmente, longe de estar concluído, que registou erros que exigem agora intervenções de reordenamento e requalificação urbana, mas que transformou, sem dúvida, a face dos concelhos.
Mesmo em áreas que não são da sua competência, como se tem verificado com a saúde e o apoio social, as autarquias têm-se assumido como agentes fundamentais no combate à pobreza e à exclusão social, mais relevante ainda, agora que vivemos uma grave recessão, substituindo-se, mesmo, ao poder central, em certos cuidados de saúde.
No entanto quando estamos a poucos meses das eleições autárquicas não deixa de ser interessante reflectir sobre as principais «causas mobilizadoras» que Arouca desenhou, em cada um dos «seus tempos políticos» ao longo destes trinta e cinco anos. Logo fica uma sensação de causas perdidas e/ou não totalmente ganhas. À memória vem de imediato a Barragem de Alvarenga (no Rio Paiva), a estrada para S. Pedro do Sul e a ligação ao litoral. Uma consulta à imprensa local, às actas das reuniões da Câmara e Assembleia Municipal ou uma conversa com os antigos e actuais autarcas permite-nos perceber a importância que, cada uma no seu tempo, tiveram. Projectos que foram capazes de mobilizar vontades, constituir propostas programáticas e até avocaram uma certa consciência transversal (quase) unânime dos políticos locais. Chegou mesmo a haver comissões pluripartidárias (luta pela ligação a S. Pedro do Sul).
Estas seriam obras julgadas fundamentais para levar Arouca a outros patamares de desenvolvimento.

Apesar de todas estas sinergias, até hoje, nenhuma destas obras, no seu todo, se materializou.
- A Barragem de Alvarenga não foi feita. Nem está por agora nos planos do governo (a sua construção é hoje bem menos consensual).
- A estrada de S. Pedro do Sul ficou-se pela fronteira, com a Câmara daquele concelho a não corresponder ao esforço feita pela sua congénere arouquense. Hoje não há uma ligação capaz e condigna a S. Pedro do Sul.
- A «via estruturante» está há quatro anos parada na Ribeira (Tropeço) sem que se vislumbre o litoral…
Causas perdidas? Os próximos tempos, neste ou no novo quadro político a sair das próximas eleições, terão que nos ajudar a encontrar respostas.

Artigo publicado na edição do jornal Roda Viva (edição de Maio)

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