A Câmara e as quintas!

20 de Março de 2009

em Vários

marco-sony-173Em Janeiro de 2006, ainda em «estado de graça», o Presidente da edilidade, Artur Neves anunciava com pompa e circunstância que a Câmara iria recuperar quintas abandonadas para proporcionar a auto-sustentação a quem estava sem trabalho. O Público do dia 30.1.2006 noticiava então, com enorme destaque, que a «Câmara de Arouca pretende recuperar as casas das quintas abandonadas das aldeias tradicionais do município, para que sirvam de morada a desempregados que queiram dedicar-se à agricultura biológica, ao cultivo de produtos sem recurso a químicos». O grande propósito era então «encontrar no espaço rural uma forma de criar a sua própria auto-sustentação” acrescentando o edil que era «cedido um espaço a quem está na cidade e não consegue arranjar ocupação, que não tenha formas de viver…Porque há-de estar o Estado a subsidiar esta gente?”, questionava-se então Artur Neves.
Assim, em «poucas semanas» seria «constituída uma equipa, composta por técnicos da Universidade de Aveiro ligados à área do planeamento» que faria «o levantamento dos recursos existentes em Arouca» com o objectivo de delinear «quais os projectos que podiam ser desenvolvidos nas diversas áreas rurais.» Para esse processo eram precisos cerca de sete meses. Seria também esse grupo que definiria “as regras de produtividade”.
A ideia envolvia o Instituto Nacional da Habitação mas, antes disso, os proprietários das extensas áreas rurais, que estavam “inactivas”, seriam abordados. “Há centenas de espaços destes”, assegurava então o autarca socialista que ia ao ponto de explicar que os novos inquilinos deveriam pagar um aluguer aos proprietários, mediante um contrato que seria estabelecido entre ambas as partes. No entanto, essa conta poderia ser liquidada com os géneros produzidos, mais concretamente produtos biológicos que sublinhava “cada vez mais terão procura nas cidades”. Os interessados teriam um incentivo inicial (presumivelmente dado pela Câmara) para suportar as despesas na fase de arranque. O autarca disse ainda, que o projecto fazia parte do plano estratégico de desenvolvimento sustentado do concelho, que refiro, com estes contornos se desconhece.
Passados três anos e sobre este assunto tive a oportunidade de na penúltima reunião de Câmara colocar algumas questões concretas ao Presidente da Câmara. O que foi feito? Que equipa foi constituída? Que técnicos foram envolvidos? Que acordo ou protocolo foi estabelecido com a Universidade de Aveiro? Que custos houve? Quantas quintas abandonadas foram recuperadas? Quantos empregos foram criados?
A estas questões… uma «mão cheia» de nada! Porque nada existe. Um vazio confrangedor naquilo que foi assumido como um dos desígnios emblemáticos.
Mas esta ideia, este projecto, que aparece agora «recauchutado» na imprensa, três anos depois «Câmara de Arouca quer famílias carenciadas a explorar quintas votadas ao abandono» (Jornal Público de 25.2.2009) é o exemplo acabado da gestão casuística e sem sentido estratégico da Câmara Socialista. As razões são de uma clara uma falta de sustentabilidade, revelando mais um exercício propagandístico à imagem e semelhança da acção «socrática» que impera no país.
Também estranho e condenável do ponto de vista político é que este projecto foi anunciado e reanunciado sem enquadramento que emane das Grandes Opções do Plano, sem haver debate e uma decisão do Executivo. Mais uma vez o Presidente da Câmara esqueceu-se que preside a um órgão colegial e exercita-se numa prática de «singular majestoso». E isso não configura nada de bom. Antes pelo contrário!
Mas, tal como este, houve muitos outros projectos falhados num mandato que agora está a terminar. Que morreram prematuramente! Desde a criação de gado arouquês na Serra da Freita à conversão das casas de ex-guardas florestais para fins turísticos, desde da fábrica de queijos em Alvarenga à Pousada no Convento, da escola profissional ao auditório municipal. Estes, entre muitos exemplos, que caracterizam uma Câmara que irremediavelmente se perdeu numa «caminhada». Em prejuízo de Arouca!

Publicado no Jornal Roda Viva em 19 de Março de 2009

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