Arouca num Verão revisitado.

30 de Setembro de 2010

em Arouca,Autarquia,Política

Estamos num final de um Verão empardecido por um vasto conjunto de inusitadas circunstâncias. Consequência maior de uma crise não só social e económica mas sobretudo de valores. Há algo perturbador no nosso mundo globalizado. Esse mundo que bem pode ser aquele à beira da nossa porta.
A gente angustia-se com a pressa do tempo presente. Angustia-se com as notícias…quase todas más.
Olhando esse passado recente ficam-me na memória os incêndios sem controlo. Arderam sobretudo zonas plantadas com aquilo a que alguém chamou na época “o nosso petróleo verde”: eucaliptos. E assim perdura um problema que em cada ano se agudiza apesar dos compromissos de uns governantes irresponsáveis, sobretudo porque não foram e não são capazes de remediar um problema sério que incrementaram ao criar as condições para o abandono das nossas aldeias serranas… E em terra de ninguém é difícil senão impossível prevenir-se os fogos.  Arouca é disso exemplo! Um mau exemplo.
A gente fica triste!
A gente fica triste ao saber que Arouca continua a ter dos piores indicadores sócio-económicos. O último a ser conhecido é o de poder de compra. No ranking do indicador «per-capita» somos dos mais atrasados do país e o penúltimo no distrito (atrás de nós só castelo de Paiva). Por esta e por outras semelhantes continuamos a perder na competitividade territorial. Razões e consequências numa terra parada, que tarda a encontrarem um rumo, liderada por políticos erráticos, sem chama e sem vontade. Interrogo-me como se interrogam muitos arouquenses como será possível apostar no futuro sem uma mensagem de mudança centrada em novos projectos.
E se isso não bastasse há ainda cada «coisa»…
Não é que depois de um forte investimento financeiro do município a Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) do Vale de Arouca, inaugurada no passado dia 25 de Junho, se regista uma enorme irresponsabilidade ao permitir-se descargas directas para o rio. E depois algo extraordinário é ver uma Câmara (primeira e única responsável) a criar uma «Comissão de Acompanhamento da ETAR» que serve unicamente para branquear uma lastimável situação.
Numa terra do «Geopark», do turismo que se quer de qualidade, os crimes ambientais são assim notícia recorrente, o vandalismo faz das suas, desde o estádio de futebol à tasca do Sr. António.
O quartel da GNR espera em vã glória um posto de transformação (PT) num episódio digno do terceiro mundo, apesar de acreditar que este há-de chegar com a vinda de um qualquer governante socialista, que bem poderá aproveitar a oportunidade para explicar porque é que os arouquenses não terão isenções nas SCUTS apesar do critério ser o Índice de Poder de Compra Concelhio (IPCC).
Isto tudo quanto em Setembro se espera mais um anúncio sobre o anúncio de uma variante já anunciada. Até ai e por razões reconhecidamente antagónicas regista-se a quebra de solidariedade entre os Presidente das câmaras das terras de Santa Mafalda e de Santa Maria da Feira. E ei-los agora cada um a puxar para seu lado.
Ah…e aquela coisa de despedir trabalhadores por SMS numa fábrica de calçado de Santa Eulália tornou-nos quase famosos. Algo de confrangedor!
São tantos os problemas. Especificamente nossos, alguns tão antigos que já nem se conhece a origem…e depois uma persistente vontade de não os enfrentar de uma vez por todas. Por apatia e clara incapacidade.
E por isso, talvez por isso, constato que há cada vez mais, os que preferem ir-se embora para se poderem realizar. Sobretudo profissionalmente. Este é  o pior sintoma que nos podia atingir, porque, sendo certo que sempre fomos uma região de emigração, temos agora uma jovem geração de emigrantes que não foge da miséria: foge de uma Arouca que tarda em ter futuro.

Publicado no Jornal Roda Viva, edição de Setembro

Anterior:

Seguinte: