A propósito do custo de vida…

O debate que hoje se faz um pouco por todo o mundo, sobre o aumento do preço dos produtos essenciais, leva-me a reflectir sobre testemunhos de intervenção política feita em Arouca nas duas últimas décadas, sobretudo na Assembleia Municipal, tendo como pano de fundo a agricultura e o seu (não) futuro, e o desenvolvimento do mundo rural.
Quantas vezes ouvi vozes, sobretudo vindo das bancadas de esquerda, que agricultura tinha os dias contados, mesmo quando à distância se percebia a importância do equilíbrio fundamental entre o rural e o urbano. Uma discussão recorrente, filosófica, com laivos mais ou menos saudosistas, tendo como pano de fundo a dialéctica entre explorados e exploradores. Sendo certo que nunca se poderá esquecer que durante muitos e longos anos a situação nos campos era de extrema pobreza, injustiça e miséria, que foi do campo que milhões de portugueses tiveram de emigrar para escapar à fome e à indigência, não se desculpa aqueles que, com responsabilidade política quer a nível local quer nacional, denotaram grande desprezo pela agricultura. Veja-se como o fértil vale de Arouca foi, ao longo dos últimos anos, destruído.
Estamos também neste domínio a pagar a factura!
O preço dos alimentos básicos é hoje motivo de enorme preocupação e o processo mais parece uma espécie de ajuste de contas com o passado. Sobretudo com o passado recente.
Hoje há muitos a recordar que antes de entrarmos na UE produzíamos mais de metade do que comíamos. Duas décadas depois, sabe-se que produzimos menos de um quarto daquilo que comemos; à força de subsídios, desmantelámos a frota pesqueira e deitámos fora toda uma cultura e saber que demorou gerações infinitas a apurar. A Comunidade Europeia, o povo europeu, pagou ao longo dos últimos anos fortunas para que os agricultores abandonassem os campos. Ficaram a monte, como se ousa dizer.
Muitos ficarem expectantes, sentados a ver em que paravam as modas. Não se investiu. Ninguém inovou.
Por arrastamento vimos como foi desmantelada a florestal tradicional, em favor de um mar de eucaliptos, contribuindo ainda mais para a desertificação e os indescritíveis incêndios de Verão.
Como pano de fundo fica a ideia de como foi possível gastar os rios de dinheiros europeus, que nos poderiam e deveriam ter garantido a solvabilidade e independência económica para sempre, a construir estradas, auto-estradas e duas metrópoles que nunca são suficientes para acolher o Portugal que fugiu do interior defunto, onde fecham hospitais, escolas, maternidades, tribunais…e tudo mais que há-de vir à cabeça dos nossos insensatos governantes, cada vez mais sensíveis única e exclusivamente aos argumentos e influências de uma determinada casta de falsos empresários que vegetam perpetuamente à sombra do Estado. Eis um poder obscuro que nos governa, que nunca poderá ser sufragado! Tudo isto feito num Portugal presumivelmente democrático, em acções legitimadas por grandes «fazedores de opinião» que a soldo do mesmo poder, nos vão dizendo da importância dos sacrifícios a bem de um futuro que continuará a sorrir, como sempre …para os mesmos! 

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